10 de Fevereiro

A Arte de Viver a Abundância

Sei passar falta, e sei também ter abundância; em toda maneira e em todas as coisas estou experimentado, tanto em ter fartura, como em passar fome; tanto em ter abundância, como em padecer necessidade.

Muitos aprendem a lidar com a escassez, mas poucos sabem como viver a abundância. Quando tudo vai bem, nossa cabeça tonteia no topo da montanha e corremos o risco de cair. O cristão descredencia mais sua fé na prosperidade do que na adversidade. Isso pode parecer contraintuitivo, mas a verdade é que a abundância é mais perigosa que a dificuldade. A adversidade nos refina, enquanto a prosperidade nos testa de forma muito mais severa. Quantas almas se tornaram vazias espiritualmente justamente porque receberam muitas bênçãos? Quando Deus nos abençoa abundantemente, frequentemente esquecemos de agradecer e nos afastamos dele. Os israelitas experimentaram isso: saciados de comida, cheios de ingratidão, caíram na imoralidade e na ira de Deus recaiu sobre eles.

Mas Paulo aprendeu algo que a maioria nunca consegue: como viver cheio sem perder o espírito. Quando sua vela estava cheia de vento próspero, ele carregava lastro espiritual para não virar. É uma habilidade divina saber como estar cheio—saber prosperar sem se corromper, ter muito sem esquecer de quem te deu, receber bênçãos sem que elas se tornem armadilhas. A graça abundante de Deus capacitou Paulo a carregar a taça transbordante da alegria com as duas mãos firmes. É curioso e lamentável: quando temos muito das mercês de Deus, frequentemente temos pouco de sua graça. Nosso coração fica satisfeito com a terra e deixa de anseiar pelo céu. Por isso, a lição que Paulo nos ensina é que é mais difícil saber como ser pleno do que saber como ter falta. Nossa natureza humana inclina-se naturalmente para o orgulho e para o esquecimento de Deus quando estamos saciados. Se você deseja realmente crescer espiritualmente, peça a Deus em suas orações que te ensine essa lição rara: como ser cheio e ainda assim permanecer dependente dele.

Oração

Pai, reconheço que tenho dificuldade em receber tuas bênçãos sem deixar que elas afastem meu coração de ti. Quando a vida é boa, minha gratidão esfria e minha necessidade de ti parece diminuir. Ensina-me a arte que Paulo aprendeu: a de viver abundantemente sem me corromper, de receber muito sem me esquecer de ti. Que minhas bênçãos me aproximem mais de ti, não me afastem. Fortifica meu espírito para que a prosperidade não vire minha perdição. Amém.

Adaptado de C. H. Spurgeon, "Morning and Evening" (1865, domínio público), modernizado para leitura contemporânea.