10 de Março

A armadilha da prosperidade sem fim

Quanto a mim, dizia eu na minha prosperidade: Jamais serei abalado.

Há uma perversidade estranha em nossos corações: quando tudo vai bem, esquecemos que precisamos de Deus. Davi, um homem segundo o coração divino, caiu nessa cilada e confessou: "Quanto a mim, dizia eu na minha prosperidade: Jamais serei abalado" (Salmos 30:6). Se temos saúde, dinheiro, sucesso nos negócios, reconhecimento social e a vida flui sem grandes obstáculos, é quase inevitável sentir que dominamos nosso destino. Somos tentados a acreditar que conquistamos tudo com nossas próprias mãos e que nada nos abalará.

Mas essa sensação de segurança absoluta é uma ilusão perigosa. Quando os dias são sempre calmos, quando não há perdas, quando tudo prospera sem interrupção, corremos o risco de nos intoxicar com o prazer. É como aquele que dorme no topo do mastro de um navio: a cada momento está à beira do precipício, mas não o sente. A prosperidade contínua, sem nenhuma dificuldade, é na verdade uma provação muito ardente. Os cristãos que experimentam apenas sucesso frequentemente perdem a vigilância espiritual que os mantém humildes diante de Deus.

Então, estranhamente, devemos ser gratos até mesmo pelas aflições. Quando perdemos algo valioso, quando enfrentamos dificuldades, quando encontramos obstáculos no caminho, nesses momentos Deus nos faz lembrar que não somos invencíveis. As mudanças difíceis, as perdas materiais—são elas que nos salvam da ilusão de que podemos viver sem dependência de Deus. Se você está em dias de dificuldade, saiba que Deus está cuidando de sua alma tanto quanto cuida de sua vida material. A prosperidade sem fim é uma cilada; a dificuldade é um presente disfarçado.

Oração

Senhor, reconheço hoje que minha tendência é confiar em dias de bonança e esquecer de Ti quando tudo corre bem. Abro meu coração para entender que as dificuldades e perdas não são punições, mas formas amorosas de me trazer de volta ao Teu abraço. Ajuda-me a manter vigilância espiritual em qualquer circunstância e a encontrar em cada mudança uma oportunidade de crescer em dependência de Ti. Que eu nunca presuma estar a salvo enquanto vivo longe da Tua vontade. Amém.

Adaptado de C. H. Spurgeon, "Morning and Evening" (1865, domínio público), modernizado para leitura contemporânea.